Crônica nº 11: Em 1987, "Esperantina: A Cidade Onde Fui e Não Cheguei"

Data da postagem: 11/08/2026

Em 1987, "Esperantina: A Cidade Onde Fui e Não Cheguei"

Esperantina, município da sub-bacia do Rio Longá, era conhecida como a Terra dos Cocais, símbolo da resistência nordestina representada pela palmeira que desafia secas e adversidades. Mas sua identidade ia muito além da paisagem.

Ali, a Igreja Católica, através do padre Francisco Ladislau João da Silva, pregava o Cristo original: aquele da justiça social, da partilha e da dignidade humana. Um Cristo que ensinava que o pão deveria ser direito de todos e que a mãe terra não poderia permanecer concentrada nas mãos de poucos, a serviço da opressão.

Não por acaso, Esperantina também entrou para a história política do Piauí ao eleger três vereadores do Partido dos Trabalhadores na primeira eleição de 1982, ainda durante a transição da Ditadura para a Democracia. Entre eles estava Maria Alice, mulher guerreira e referência de luta popular.

Foi exatamente para esse município, com esse perfil social e político, que a nova direção da EMATER-PI, já sob a gestão do PMDB de Alberto Silva, resolveu apontar meu destino.

Em Alto Longá, minha permanência tornara-se impossível. As denúncias que fazíamos e o trabalho de organização popular despertavam temores na política local, que exigia minha transferência. A direção então apresentou sua solução: Esperantina.

Não titubeei diante do desafio.

Mas fiz uma pergunta direta:

— Por que não me transferir para Teresina?

Eu não tinha dúvidas de que a direção não pretendia garantir minha presença somando forças ao trabalho de base que já existia em Esperantina.

A resposta veio rápida e seca:

— Em Teresina não há vaga.

Percebendo o que estava por trás daquela decisão, resolvi entrar de férias e deixar a notícia correr. Quinze dias depois, fui procurado pela direção.

A surpresa veio em forma de comunicado:

— Você será transferido de Alto Longá para Teresina.

A partir daí instalou-se uma polêmica.

Eu já possuía em mãos a portaria oficial que determinava minha transferência para Esperantina. Meu compromisso ético não me permitia fingir que nada havia acontecido.

Fui direto ao assunto:

— Estou com a portaria em mãos. Ou vocês me transferem oficialmente de Esperantina para Teresina, ou não aceito a mudança. Do contrário, vou me apresentar em Esperantina.

Nos bastidores, recebi a explicação para aquela reviravolta.

A reação do poder local em Teresina havia sido imediata:

— Aqui ele não entra.

A frase dizia muito mais do que parecia.

Ali se encerrava um ciclo.

Fechavam-se dez anos percorrendo o chão batido e empoeirado das estradas piauienses como extensionista rural. Dez anos de trabalho junto aos pequenos agricultores, às comunidades, às pastorais e aos movimentos populares. Dez anos de aprendizado, enfrentamentos e construção coletiva.

Se minha luta tivesse sido movida por interesses pessoais, aquele seria o momento da vitória. Morar na capital era o sonho de muitos extensionistas do interior. Talvez fosse isso que a direção da EMATER esperasse: que eu recebesse a mudança como prêmio, como compensação ou como forma de apaziguamento.

Mas para mim não havia prêmio. Havia tarefa.

E, enquanto existisse tarefa, a caminhada continuaria.

A luta segue nos próximos capítulos.

*Adalberto Pereira de Sousa - Extensionista Rural e um dos fundadores do PT.



Por Marco Aurélio Siqueira