Crônica nº 10: Alto Longá-PI, Entre Prefeitos, Portarias e Resistências

Data da postagem: 29/05/2026

Adalberto Pereira


A extensão rural, que antes se estendia desde Barreiras do Piauí — nas proximidades da nascente do Rio Parnaíba — passou a alcançar o município de Alto Longá, terra que carrega o nome de outro rio que lhe dá identidade: o Longá.

O pedido de transferência, já quase esquecido no tempo, havia sido formalizado por mim com a expectativa de chegar mais próximo de Teresina. Para minha surpresa, a portaria saiu no primeiro semestre de 1986. O destino era Alto Longá, a cerca de 80 quilômetros da capital, situado no Território dos Carnaubais, sob a sede regional da Emater-PI em Campo Maior.

Nessa caminhada, quem presidia a Associação Piauiense dos Prefeitos Municipais (APPM) — era o prefeito do mesmo município onde, segundo a lembrança popular, era área de segurança nacional e Lula teria pegado uma jiboia com as próprias mãos. A partir dali, tive a impressão de que minha chegada já estava anunciada: a cama política parecia arrumada para todos os prefeitos do Piauí.

E não deu outra. O primeiro obstáculo foi conseguir uma casa para morar. Diversas tentativas foram feitas, todas negadas. Só consegui residência quando, por coincidência, acertei com um opositor do grupo político dominante local.

O ano era 1986, período em que, pela segunda vez, o Partido dos Trabalhadores me desafiava a assumir a candidatura a deputado estadual. Não tive alternativa: aceitei e fui à luta.

Após o pleito eleitoral, retornei ao trabalho no município, onde o candidato apoiado pelo prefeito havia perdido a eleição para o governo do Estado. O Piauí passava então a ser governado por uma “nova força política”, o PMDB, na figura do ex-governador biônico Alberto Silva, agora reconduzido pelo voto popular.

Não havia ilusões de grandes mudanças, mas ainda assim houve um breve respiro. Esse respiro, no entanto, durou pouco. Logo no início do ano seguinte, já era visto com desconfiança e denunciado pelo grupo de oposição ao prefeito que havia apoiado o governador eleito.

Fui então chamado à direção estadual, onde me informaram que não havia mais condições de garantir minha permanência no município. Sentindo o clima da capital, segui para Teresina, mesmo sem ter sido oficialmente transferido para o escritório local.

Mas, como em outras passagens dessa trajetória, ficou marcado um episódio em Alto Longá: o informativo que produzi e circulava em mimeógrafo a álcool e de propriedade particular. Ele me acompanhava na militância e denunciava o descaso da gestão municipal, ao mesmo tempo em que fazia críticas ao grupo de oposição e reafirmava a opção política pelo PT, que ainda engatinhava e havia disputado a prefeitura sem sucesso.

Ali, o que era apenas um instrumento técnico da extensão rural se transformava também em ferramenta de denúncia e posicionamento político.

O próximo capítulo será a transferência para outro município — para onde, na prática, não houve tempo de chegada. Nem mesmo o tempo de alugar uma casa.

Adalberto Pereira - Extensionista rural e um dos fundadores do PT no Piauí

 


Por Marco Aurélio Siqueira