Crônica nº 8: Santa Filomena – Entre o Exílio Administrativo e a Esperança.

Data da postagem: 23/04/2026

Adalberto Pereira

Aqui transcrevo mais um dos episódios que marcam um período em que a democracia era um desafio cotidiano para aqueles que lutavam pela sobrevivência, conciliando o exercício da profissão com a militância social.

Ao mesmo tempo, é preciso mantermos a vigilância para não sermos ludibriados por forças da extrema direita que, ainda hoje, se arvoram na tentativa de reverter valores e direitos conquistados ao longo dessa caminhada.

Este relato, mais do que memória, é também um alerta — e, sobretudo, um testemunho de resistência, esperança e compromisso com a justiça social.

Santa Filomena, no Piauí — terra de povo hospitaleiro e solidário, fincada a 890 quilômetros da capital, às margens do Rio Parnaíba — foi o meu destino depois da experiência como extensionista e militante do PT na área de Segurança Nacional, em Guadalupe.

Naqueles tempos (1.984), não se tratava apenas de uma transferência. Era, para muitos, um duro exilio administrativo. A distância, o isolamento e as precárias condições de deslocamento, moradia, trabalho e comunicação transformavam o município em um verdadeiro teste de resistência.

A estrada de acesso era tão ruim que não permitia linha de ônibus. O trajeto só se fazia em veículos com tração nas quatro rodas. Nem mesmo o caminhão baú da empresa, que costumava transportar nossas mudanças, conseguiu cumprir a missão. Dessa vez, não houve alternativa: eu, Joana e nossa filha de dois anos tivemos que nos contentar em levar a vida ,nossos pertences dentro de uma bolsa e uma mala. O resto ficou para trás. O destino imediato foi a pensão de Dona Antônia — figura humana inesquecível, dessas que a memória guarda com respeito e carinho.

Quando anunciaram minha transferência, não titubeei. Com a formação católica que trago desde a origem, pensei comigo: vou até para o inferno se me mandarem, mas não peço as contas.

Mas o silêncio nunca foi meu caminho. A revolta e a sede de justiça logo me fizeram agir. Botei a boca no trombone. Escrevi uma carta aos deputados da Assembleia Legislativa do Piauí, relatando não só o potencial do município, mas também as agruras daquele povo — isolado de tudo: estradas, energia, comunicação, dignidade.

*Adalberto Pereira escreve toda semana para o site do Sinsep-PI

Por Marco Aurélio Siqueira