Crônica nº 7: Entre o Altar, o Revolvinho e o Mutirão

Data da postagem: 10/04/2026

Em Flores do Piauí, no ano de 1981, cheguei como um extensionista rural que carregava a mala e mais sonhos que juízo — um utópico destemido que não media as consequências de uma demissão ou de um novo “exílio” geográfico. Flores, encravada na sub-bacia do rio Itaueira, era terra de um povo trabalhador e acolhedor, mas o cenário político era árido como a estiagem.

Assumi a chefia do escritório local da Emater, vinculado à regional de Floriano. Naquela época, o trabalho resumia-se ao “programa de emergência” — as frentes de trabalho que, em tese, deveriam mitigar os efeitos da seca. Na prática, porém, o programa servia para alimentar o clientelismo escuso da política local.

Minha vida era um vaivém. A proximidade com São Raimundo Nonato permitia-me manter a militância na região e o namoro com a professora Joana. Antes de subirmos ao altar, decidimos desafiar a tradição e viajar para São Paulo. O “atrevimento” causou constrangimento aos tios conservadores dela, que não admitiam tal comportamento antes do casamento. Mal sabiam eles que aquele desafio aos costumes era fichinha perto do embate que eu travava no escritório.

Ao revisar as listas do programa emergencial, encontrei dezenas de inscritos vinculados à prefeitura e à previdência, enquanto os verdadeiros agricultores ficavam de fora. Quando comecei a substituir os apadrinhados por quem realmente vivia da terra, o conflito estourou. Vieram as ameaças de morte. Sem garantias de segurança, o técnico utópico passou a usar, diariamente — até mesmo dentro do escritório —, o “recurso trivial” da arma de fogo para autodefesa.

Mesmo sob tensão, o trabalho social de base floresceu. Priorizei a dimensão organizacional no Projeto Vale do Rio Itaueira. Enquanto os poderosos queriam obras de fachada, eu falava de cooperativismo e sindicato. A ousadia máxima, porém, foi o grande mutirão que organizamos com as comunidades rurais para recuperar as estradas vicinais. Ver o povo unido, pegando no cabo da enxada para abrir caminhos por conta própria, arrepiou o poder local. Aquilo não era apenas obra; era uma demonstração de autonomia — algo que o coronelismo sempre temeu.

Em 1982, chegou a “hora de botar a onça para beber água”. Filiado ao PT, fui um dos candidatos a deputado estadual na primeira eleição do partido. Era um tempo de “fotos sem voz” no rádio e na televisão, de voto vinculado e regras ditadas pelos militares. Não tínhamos ilusões, mas queríamos quebrar as cercas do latifúndio e do medo.

Infelizmente, o tempo com aquele povo acolhedor foi curto. Após a campanha, o prefeito já não admitia minha presença. A direção da Emater, em vez da demissão, optou pela transferência. Saí de Flores com a professora Joana ao meu lado e a certeza de que deixava raízes na sub-bacia do Itaueira. O destino? Aquela famosa Área de Segurança Nacional onde, dois anos depois, uma jiboia cruzaria o caminho de um certo sindicalista barbudo.

Adalberto Pereira. Extensionista rural e um dos fundadores do PT.


Por Marco Aurélio Siqueira