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Crônica nº 5: A CARTA QUE NÃO PUDE ASSINAR
Data da postagem: 18/03/2026
CRONICA - 05 Antes de mergulhar nesta memória, é preciso dizer por que ela volta à tona agora. O Brasil já viveu tempos em que escrever uma carta de denúncia podia significar perseguição, sindicância ou algo ainda pior. Tempos em que a democracia não existia plenamente e o medo fazia parte da rotina de quem ousava questionar a ordem. Quase meio século depois, o Brasil voltou a encarar sinais perigosos de ruptura institucional. O que culminou nos Ataques de 8 de janeiro de 2023 no Brasil, em Brasília, não foi um fato isolado ou espontâneo. Foi o desfecho de uma escalada de ataques às instituições democráticas, de desinformação sistemática e de mobilização política que buscou desacreditar o processo eleitoral e preparar o terreno para uma ruptura. Para quem viveu os anos da ditadura, episódios assim acendem um alerta inevitável. Não existe romantismo em regimes autoritários. Eles começam muitas vezes com discursos inflamados, passam pela tentativa de deslegitimar instituições e, quando encontram terreno fértil, avançam contra a própria democracia. É nesse espírito de memória e advertência que compartilho o episódio a seguir para que não volte a repetir. Ele aconteceu em 1980, quando escrever uma carta de denúncia exigia coragem — e, às vezes, a prudência de não poder assiná-la A CARTA QUE NÃO PUDE ASSINAR Em março de 1980, a Ditadura ainda estava ativa o General João Figueiredo governava com mão de ferro disfarçado de abertura, no Piauí era o governador Biônico Lucidão e o vice Waldemar Macedo, filho de São Raimundo Nonato cravado na sub-bacia do Rio Piauí, o tempo era medido pela poeira das estradas e pelo silêncio imposto pelas botas da Ditadura. Naquele cenário onde Niede Guidon começava a desenterrar as provas de que a humanidade escolhera a Serra da Capivara como berço, um jovem extensionista iniciava sua própria jornada de militância. Era o despertar de uma consciência que entendia: a "mãe terra" não aceitava as correntes da "Revolução Verde". A denúncia era um grito entalado. Entre o descaso do Projeto Sertanejo e a prepotência da EMATER, os salários minguavam em atrasos de três meses. Para receber o que era de direito, o destino era São João do Piauí, a cem quilômetros de sol e incerteza, em carros fretados do próprio bolso. Enquanto isso, o combustível oficial alimentava as farras de quem ditava as regras. A estratégia foi de guerrilha de papel. Uma missiva corajosa, escrita com o sangue da indignação, precisava de um escudo. Um amigo baiano Antonio Fernando, radicado em São Raimundo Nonato, assumiu o risco: entregou a cópia da identidade ao jornal para que a verdade pudesse circular sob o manto do anonimato. Era a tática de defesa necessária em tempos onde as paredes tinham ouvidos. Publicada a carta denúncia, a reação foi imediata. A "ordem" não aceitava o questionamento. Uma portaria de sindicância desceu sobre o escritório de São Raimundo como uma nuvem de tempestade. Inquiridos pela comissão, todos negaram a autoria, embora todos reconhecessem ali a mais pura verdade. Mas o peso do silêncio se tornou insuportável quando a chefia, movida por velhas rixas, apontou o dedo para Sindelbino, o veterinário que, em gozo de férias, nem sabia da tempestade que o cercava. Ali, o autor da carta viveu suas noites mais claras — não pelo sol do semiárido, mas pela vigília da consciência. "Se vier a punição para ele, eu me entrego", era o juramento feito no escuro do quarto. O medo da repressão era grande, mas o medo da injustiça contra o colega era maior. A punição, por sorte ou destino, não veio. O alívio de não ter sido "dedurado" pelos colegas misturou-se à paz de ver Sindelbino ileso. Como diria o mestre Suassuna, o que se passa de ruim é bom para contar. Quarenta e seis anos depois, a carta amarelada e as iniciais S.R.N. deixam de ser apenas um registro burocrático para se tornarem o testamento de um tempo em que a primeira carta que não se pôde assinar foi, na verdade, o primeiro passo de uma vida inteira dedicada à liberdade. Adalberto Pereira. Extensionista Rural Aposentado, um dos fundadores do PT no Piaui.
Por Marco Aurélio Siqueira