O dia em que o padre me deu a mão.

Data da postagem: 20/02/2026

Talvez, ao ler esta crônica, você estranhe a distância, o silêncio, o medo e a dureza que atravessam cada linha. O Brasil vivido aqui é o das décadas de 1960 e 1970, período marcado pela ditadura militar, pela censura, pela repressão política e por profundas desigualdades sociais — especialmente no campo.

Naquele tempo, estudar não era um direito garantido: era uma conquista rara. Para muitos jovens do interior, concluir o ensino básico já exigia trabalho precoce, longas caminhadas, sacrifícios físicos e escolhas difíceis. A migração para grandes centros, como São Paulo, era quase sempre a única alternativa oferecida à juventude pobre. Ficar, estudar e sonhar eram atos de resistência.

Não havia políticas públicas estruturadas para a juventude rural. O acesso à educação dependia, muitas vezes, da solidariedade entre pessoas, da ação de comunidades, da Igreja progressista e de educadores comprometidos com a justiça social. Um gesto simples — como oferecer abrigo, reforço escolar ou uma palavra de incentivo — podia alterar o rumo de uma vida inteira.

Esta crônica não fala de heroísmo individual. Fala de um tempo duro, em que caminhar cinquenta quilômetros a pé não era exceção, mas necessidade; em que o medo existia, mas não podia vencer; em que a esperança se sustentava mais em mãos estendidas do que em políticas de Estado.

Que esta leitura ajude você a compreender que muitos dos direitos que hoje parecem naturais foram conquistados com esforço, silêncio, coragem e caminhada. E que a educação, ainda hoje, continua sendo uma estrada — às vezes longa — mas capaz de mudar destinos.

Na linha do tempo da minha vida, há um dia que não cabe apenas na memória: ele precisa ser contado. Foi o dia em que um padre me deu a mão — e, sem saber, ajudou a mudar meu destino.

Nasci em 1957, na cidade de Várzea Grande, no Piauí. Naquele tempo, ainda era povoado de Valença, encravado na bacia do rio Berlenga. Foi ali que vivi a infância e a adolescência, dividindo o tempo entre a escola e a roça. Ao lado do meu pai, José Maria do Ozeas, aprendi cedo o peso do trabalho e o valor da persistência. Com minha mãe, Maroca, aprendi a dignidade do esforço diário, no trabalho doméstico e na geração de renda com a confecção de redes de algodão.

Em 1970, concluí o ensino primário e ingressei no ginásio Oito de Dezembro. A partir dali, passei a assumir parte da minha própria manutenção. Estudava à noite e trabalhava durante o dia na agricultura. Minha renda vinha da venda de cargas de lenha, transportadas no lombo do jumento, e da extração da amêndoa do coco babaçu. Aos fins de semana, ainda montava uma banca na feira da cidade e no povoado Barra D’Alcântara, com mercadorias cedidas pelo meu tio Belé. O lucro era dividido igualmente: cinquenta por cento para cada lado. Era assim que a vida se sustentava.

Concluído o ginásio, duas estradas se abriram diante de mim. Uma levava a São Paulo, destino quase obrigatório da juventude que alcançava a maioridade. A outra surgiu pela mão do vigário Padre Jose  Paulo, que residia em Elesbão Veloso, sede da paróquia. Foi ele quem conseguiu mobilizar o Colégio Agrícola de Teresina (CAT) para aplicar um teste seletivo na cidade de Elesbão Veloso sede Paróquial. Mais do que isso: convidou-me a participar, providenciou reforço em matemática com um professor e me acolheu na Casa Paroquial.

Duas semanas depois de aulas intensas, veio a notícia do adiamento do teste por mais quinze dias. A saudade apertou. E a decisão se impôs. O transporte de pessoas, cargas, mercadorias e animais só acontecia às segundas-feiras, dia da feira em Várzea Grande. Não esperei. Fui direto ao padre e comuniquei que não aguardaria. Apesar de toda a sua insistência, resisti. Peguei a estrada.

Caminhei cinquenta e dois quilômetros. Pernoitei em Francinópolis. Cheguei a Várzea Grande na noite do segundo dia, debaixo de muita chuva, com os dedos dos pés sangrando do cabresto do chinelo. Risos. Passei muito medo. Mas o medo nunca me deteve — sempre o desafiei. Lembro ainda da infância, quando era minha obrigação bater o sino da igreja às dezoito horas, já com tudo escuro ao redor.

Chegado o grande dia, retornei à cidade para o teste seletivo. Fiz a prova. E, para alegria de todos — e surpresa de muitos — fui selecionado.

Ainda em 1974, junto com um grupo de colegas da região, o padre nos levou até Teresina e nos entregou ao Colégio Agrícola Federal. Ali, em regime de internato, durante três anos, concluí o curso de Técnico em Agropecuária.

Hoje, quando olho para trás, sei: aquele não foi apenas um gesto de apoio. Foi uma mão estendida no momento exato em que a estrada parecia longa demais. Algumas vidas mudam por decisões individuais. Outras, por encontros. A minha mudou no dia em que um padre me deu a mão.

Adalberto Pereira.


Por Marco Aurélio Siqueira