CRÔNICA: Memórias de um Servidor Público na Ditadura Militar

Data da postagem: 30/01/2026

Memórias de um Servidor Público na DITADURA Militar.

Crônica

Adalberto Pereira

Iniciei minha vida profissional quando a ditadura militar já demonstrava sinais de desgaste, mas ainda exercia controle profundo sobre as instituições e as pessoas. Era 1977. Fui aprovado em concurso público, o que, em tese, deveria garantir meu ingresso no serviço público. Não garantiu.

Antes mesmo de assumir, fui informado de que meu nome havia sido substituído pelo de um colega que não havia sido selecionado. Não se tratava de erro administrativo, mas de prática política. Indignado, exigi explicações. Questionar, naquele tempo, era arriscado. O sistema recuou parcialmente: manteve a indicação irregular, mas decidiu me submeter a um novo processo seletivo, desta vez um curso fora do meu estado, em Recife. A distância também funcionava como filtro.

Fui. Fiz o curso. Fui aprovado. Assim iniciei meu primeiro emprego, na área de extensão rural. Acreditava que o trabalho técnico poderia caminhar junto com justiça social. Foi no contato direto com agricultores, comunidades e territórios que comecei a compreender o Brasil real — muito diferente daquele descrito pelos discursos oficiais.

Enquanto a grande imprensa silenciava, informativos alternativos circulavam(Jornal Movimento, Tribuna da Luta Operária, Pasquin...). A leitura desses materiais, somada à vivência profissional, permitiu uma compreensão mais profunda da conjuntura política. Não houve ruptura repentina, mas um processo de descoberta. Compreendi as desigualdades estruturais, o papel do Estado e os limites impostos pelo regime autoritário. Diante disso, o silêncio deixou de ser opção.

O exercício profissional aliado ao acúmulo de conhecimento e à determinação de lutar por transformações sociais passou a gerar conflitos com a hierarquia. As ameaças não tardaram a se concretizar. A forma de punição não era a prisão nem o processo formal, mas algo mais sutil e eficaz: as transferências.

Fui transferido uma vez. Depois outra. E outra mais.

Sempre para municípios cada vez mais distantes da capital.

Sempre com piores condições de trabalho e atraso de salários.

Sempre com a mesma mensagem implícita:

ou você se dobra, ou nós lhe quebramos.

Era a pedagogia do autoritarismo. Um exílio dentro do próprio estado.

Nunca recuei.

Cada transferência impactava também minha companheira, servidora pública da educação, que me acompanhava e me dava apoio. O Estado tentava nos isolar, mas seguíamos juntos. Duas frentes sensíveis — extensão rural e educação — submetidas à vigilância e ao desgaste contínuo de quem insistia em manter a dignidade.

A ditadura não precisava mais prender para punir. Bastava deslocar, precarizar, afastar. Bastava cansar.

Não conseguiu.

Hoje, quando escuto que “na ditadura era melhor” ou que “não foi tão grave assim”, lembro das transferências forçadas, do medo silencioso, da vigilância disfarçada de gestão, da vida reorganizada à força. Ditadura não é apenas ausência de eleições. É a presença constante do medo. É o direito condicionado ao comportamento. É a tentativa permanente de dobrar consciências.

Esta crônica não é sobre heroísmo.

É sobre memória.

Para que as novas gerações saibam:

a ditadura não terminou de um dia para o outro —

e a democracia não nasce pronta.

Ela é construída, muitas vezes, por pessoas comuns que decidiram não se dobrar, mesmo quando o preço foi alto demais.

Adalberto Pereira

Biografia: Servidor aposentado do Emater-PI (Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural do Piauí); militante da Reforma Agrária Agroecológica; um dos fundadores do PT; tem formação acadêmica nas áreas da Agricultura e da Gestão Pública.

Por Marco Aurélio Siqueira, MTE/PI 1736 - Jornalista